quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Quem Tem Medo do Lobo Mau?



Apenas dois dias após o Natal de 2008, perdemos nossa querida Kitana (Kiki), uma Akita branca com quem vivemos por dez ótimos anos. Estávamos no final da construção de nossa casa e já sabíamos os lugares onde ela ia preferir ficar. Depois de pronta a casa, os lugares que imaginávamos para ela estavam vazios tais como nossos corações. Assim, começamos a cogitar sobre um(a) novo(a) amigo(a).
Enquanto sonhávamos com todas as raças, ressaltando a beleza de cada uma, minha filha Helena propôs a adoção. No início a idéia pareceu loucura, afinal todos os nossos cães, até então, tinham raça definida, eram lindos e puros e chegavam para nós filhotes ainda. A idéia não agradou de imediato.
Helena pesquisou as possibilidades e convenceu a mim e a minha irmã a visitarmos o canil. Ficamos terrivelmente consternadas com o que vimos. Vários cães se recuperando de todo tipo de agressão.... Entramos em contato com uma realidade que nem sequer imaginávamos existir.
A história de cada cãozinho partia nossos corações e, naquelas condições, feridos, subjugados, cada bichinho daqueles foi, aos poucos, nos conquistando. Decidimos adotar (vale ressaltar que fomos conquistados cada um a seu tempo pois é muito diferente sair de casa e comprar um lindo filhotinho e sair de casa para socializar com cães machucados, magros, traumatizados, doentes...).
De qualquer maneira, nos sentimos, de alguma forma, responsáveis pelo sofrimento causado àquelas criaturinhas tristes que nos olhavam com medo mas que, ao mesmo tempo, ansiavam por um minuto da nossa atenção.
Apaixonei-me pela Rebeca, uma linda Fila, que ainda se recuperava de suas mazelas. Aos poucos fui conquistando aquela gigante e ficava morrendo de alegria quando ela lambia (babava) todo o meu braço enquanto eu acariciava sua cabeçorra.
Rebeca ficava na primeira baia do canil e sempre que eu erguia a vista enxergava, lá no finalzinho, um cão todo brando que ficava sempre chorando. Não conseguia olhá-lo sem ver a Kiki, nossa Akita querida. Não olhava mais para ele mas já o amava, apenas por ter aquele pelo branco, escasso e sem brilho e as orelhinhas em pé, atentas a cada movimento nosso.
Numa certa manhã, chegamos no canil (Helena, Glória - minha irmã - e eu) e vimos o cão branco sendo levado para um passeio. Ao se aproximar, notamos a faixa que cobria sua anca e a falta de uma patinha traseira (para nós a falta da patinha é tão indiferente que tentei lembrar qual o lado e não consigo).
Lobinho ia tão feliz ao seu passeio que, ao passar por nós, deu uma rápida lambida em nossas mãos. Fazia três dias da amputação. Foi difícil conter as lágrimas frente àquela lição de vida.
Por algum tempo fiquei dividida...Rebeca...Lobo...Lobo...Rebeca. Até que chegou abril, mês de aniversário da minha irmã e perguntei a ela sobre o presente que gostaria de ganhar e, sem titubear, ela disse “o Lobo”. Respondi “fechado” (e abri o maior sorriso).
Lobo foi para nossa casa no dia 30/04/09. Chegou bravo, defensivo, seus pelos caindo em tufos, nervoso. À noite, fechamos o portão do corredor de acesso aos fundos da casa e o deixamos solto no quintal, não antes de prepararmos sua caminha confortável. Porém, ele uivou grande parte da noite a ponto de esperarmos reclamações dos vizinhos. De repente, ele ficou quietinho. Pensei “afinal dormiu”.
Quando o dia amanheceu meu marido abriu as cortinas da janela que dá para o jardim da frente da casa e viu um cão grande e vermelho, todo vermelho, e me chamou com uma interrogação no rosto: Gordinha, nosso cachorro é vermelho...? Olhei para o Lobo e caí na risada. O danado quis ir para a frente da casa e cavou por debaixo do portão, arrancando a grama e toda a terra necessária. Passou, mas ficou completamente vermelho de lama.
Nunca mais fechamos o portão lateral. Percebemos que ele tinha o hábito de cuidar da casa. Ficava instalado na frente da casa e latia e rosnava, caso as pessoas da rua chegassem muito próximo.
Com a família, no começo ele estranhou muito e mostrava as presas por quase nada. Tinha um ciúme enorme da Helena, o que me causou um apertão em minha mão, por acariciá-la. Tinha muito medo dos rapazes, meu marido e filho, ficando muito defensivo. Isso nos preocupou demais. Então, fizemos a “operação aproximação”. Ou seja, sempre com muito cuidado, cada um de nós deveria fazer um carinho, dar uma refeição ou um biscoito e, principalmente, falar com ele para que fosse acostumando com todos nós.
A cada carinho que fazíamos nele encontrávamos uma cicatriz, o que nos deixava arrasados.
Em torno do pescoço ele tem uma cicatriz de uns 3 ou 4 centímetros, certamente resultado de uma corda que deve ter cortado seu pescoço várias vezes.
Com um bom veterinário, boa ração e muito carinho ele foi se enchendo de pelos e de segurança e, a cada dia, conquistava ainda mais nossos corações.
Hoje, Lobinho toma remédios diariamente para controlar a dor provocada por uma artrose decorrente da falta da pata e outro para formar cartilagem entre os ossos. Alimenta-se de ração com baixas calorias (é difícil controlar o apetite daquele guloso) para que possa se deslocar sem maiores esforços.
No ano passado, a paz no reinado do Lobão foi interrompida com a chegada de sua irmãzinha, a Pipoca, outra sobrevivente. Ao contrário do Lobo (branquinho, grande, calmo e atento), a Pipoca é a mais pura vira-latinha que existe. Sabe aqueles cachorrinhos pretíssimos, de orelhinhas caídas e rabinho em pé que, infelizmente, vemos aos montes nas ruas? Pois é... Ela é alegre, brincalhona e não dá um minuto de sossego ao Lobo, que a adotou assim que a viu chegar, pequenininha e frágil. Pipoquinha, em seus primeiros dias de vida, passou fome e sede e quase morreu de inanição mas não sofreu a violência humana, graças a Deus.

Nossa vontade é de adotar muitos outros cãezinhos que precisam de carinho e cuidados, mas adoção requer, antes de tudo, responsabilidade. Assim, precisamos garantir, aos dois, todos os cuidados que precisam e, principalmente ao Lobão, os remédios que controlam sua dor.
Antes de se levar um animalzinho para casa é necessário conhecê-lo, ter sua confiança.
Imagine você indo morar na casa de um desconhecido que está te tirando das ruas mas que você não sabe como vai ser tratado, já que foi, por tantas vezes, mal-tratado. Ruim, não é?
É necessário dar o tempo que o cão necessitar para começar a acreditar na sua amizade e entender que você não irá machucá-lo.
Quando Helena, minha filha, sugeriu adoção, passamos por todos aqueles estágios: negação, medo, aproximação, paixão, amor e... outro cãozinho em casa. No nosso caso, um outro cãozão, já adulto, cheio de medos e manias. Um cão nervoso que custou a compreender que nós o queríamos. Hoje ele tem certeza absoluta do lugar dele em nossa casa e em nossos corações. É como se jamais tivesse sofrido, apesar das tantas cicatrizes em seu corpinho.
Lobo e Pipoca só querem ficar próximos, recebendo nossos carinhos e cuidados e nós podemos também, sentir o carinho deles por nós.
Sempre amamos nossos cães mas a adoção mostrou que podemos fazer muito mais por eles e, no final, quem mais ganha somos nós mesmos porque o amor deles é como o nosso...incondicional.


Ana Maria Brígido é a feliz adotante do belo Lobo, juntamente com sua irmã, Helena.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Muitos Anos de Amor



Muita gente que quer adotar um cachorro prefere filhote, pois acha que um cão adulto não vai se acostumar com a nova casa e à nova família. Ledo engano. Eu escolhi adotar uma cadela adulta porque já não tenho mais pique para aguentar as diabruras de um filhote. E ensinar um filhote o que pode e o que não pode é infinitamente mais difícil do que ensinar um adulto. Numa visita à chácara da minha amiga Gy eu conheci a Shirley, uma adorável vira-lata amarela, já de meia idade, com alguns bigodes brancos. Ela havia sido resgatada pela Gabi e pela Leli com um tumor na vagina alguns meses antes, e já estava operada e tratada. Na casa da Gy, a Shirley dava trabalho. Gostava de se impor com os outros cães, era metida a mandona, e adorava uma briga. Com os humanos era um doce. Para mim, que já tinha outros cães, foi um desafio. Eu queria a Capitu, uma pretinha, mas a Capitu não queria entrar no carro de jeito nenhum. Então a amiga que estava comigo perguntou: "porque você não leva a Shirley?" e não precisou de convite, a Shirley logo pulou sozinha pra dentro do carro. Foi assim que ela me escolheu. 


A Shirley chegou em casa achando que ia mandar. Na primeira briga ela levou uma baita bronca. Eu tenho um outro cachorro encrenqueiro, que adora provocar, e recebo alguns cães em lar temporário. Não demorou muito para a Shirley entender que eu não aceito briga de espécie nenhuma. Então ela aprendeu a ficar imóvel quando algum cachorro vem chamar para briga. Ela ignora as provocações melhor do que muitos humanos!
A Shirley surpreendeu pela rapidez com que aprende as coisas. Só é preciso ensinar uma única vez. Posso deixar a porta de casa aberta, ela só entra quando eu chamo. Ela sabe que pode dormir na almofada do chão, mas não subir no sofá. Sabe que não pode entrar na cozinha, mas pode ficar sentada na porta esperando a comida. Aprendeu rápido esses comandos de senta, deita, fica. Acho que ela faz qualquer coisa pra me agradar. O cão reconhece quando a gente o ama verdadeiramente, e retribui esse amor tentando nos agradar.


As pessoas que visitam a minha casa ficam espantadas como a Shirley é obediente e educada. Parece uma lady. Isso de que cachorro adulto não se acostuma é mito. Se a gente muda o nome do cão, ou coloca um apelido muitos anos depois, ele aprende a atender pelo novo nome. Ele se adapta aos nossos hábitos, nossos horários, nossas rotinas. Aprende o que o dono permite e o que não permite. É o dono quem tem que dizer e demonstrar isso para o cão. E uma vez que eu demonstrei os meus limites para a Shirley, rapidamente ela se adaptou. Não há nenhum resquício da cachorra encrenqueira que ela era. Ela é a minha única amarelinha (meus outros 7 cães e 2 gatos são brancos e pretos ou cinza) por isso ganhou o apelido de Rayovac (quem tem cabelo branco lembra dessa propaganda, as legítimas amarelinhas). E é a coisa mais gostosa de se morder. Todo dia eu belisco e mordo muito aquelas bochechas. E a Shirley ADORA ser mordida! Vai se entender, né?...
Mas peraí, você disse gatos? Ah, sim, a Shirley também aprendeu a não perseguir os gatos. Quem é que disse que cachorro adulto não se acostuma com gatos??? E os gatos chegaram na minha casa bem depois da Shirley. No primeiro dia ela arregalou os olhos e até babou.  Mas foi só falar "nããããão pode" e pronto.


Eu sei que nem todos os cães ficam obedientes como a Shirley. Mesmo os nascidos na nossa casa, têm alguns que são desobedientes até o último dia de vida. Mas isso de ser obediente ou não é da personalidade do cão, a idade não faz diferença. E ao adotar um cachorro adulto a gente tem a vantagem de já conhecer a personalidade dele. Lá em casa tem um pestinha que chegou com 10 dias de vida, e é o cão mais fujão e bagunceiro que eu já conheci. Já nasceu assim, e mesmo com toda a minha autoridade, este aí nunca ficou obediente.
Então, aos que querem adotar um cachorro, eu dou uma dica: experimentem adotar um adulto. Logo no primeiro dia você vai conhecer a devoção de um cão que sabe que você está dando uma nova vida pra ele. Um cachorro resgatado ama e se entrega à gente de uma maneira incrível, eles parecem saber dar valor a esta segunda chance que nós estamos lhes dando.  Dos meus 7 cães, 5 eu adotei adultos, um é esse pestinha aí que chegou com 10 dias, e uma nasceu lá em casa (é a mais velhinha de todas). Ah, e uma das minhas adotadas ainda por cima é cega. Mas isso fica para outra estória.
Adotar é tudo de bom! Adotar ADULTO é ainda melhor!!!
Quem nunca adotou, não sabe o que está perdendo!






Andrea Vidal é servidora publica, tem 10 cães, 2 gatos e 5 cavalos, todos adotados.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Uma Linda Experiência



Dia 30/09/2011, sexta-feira, saí para trabalhar e me deparei com uma cachorrinha linda, porém imunda, e prenha encostada ao muro que leva à garagem do meu condomínio. Parei o carro, olhei para ela por alguns segundos com o coração apertado e segui viagem, pois precisava ir para o serviço. Lá chegando, liguei logo para o meu marido, consolador de todas as horas, e contei o acontecido. Ele também ficou triste com a situação da cachorrinha, mas o caso meio que entrou no rol de "situações tristes que fogem ao nosso controle, fazer o quê?".
Horas depois retorno para casa e quem encontro? A mesma cachorrinha, exatamente no mesmo lugar, embora garoasse e fizesse frio. Juro que ouvi um violino tocar em algum lugar, para aumentar a tristeza da cena. Desci do carro e, conversando com os garagistas, descobri que ela ficara ali todo aquele tempo, praticamente imóvel, sem receber comida ou água pois virou regra do condomínio não permitir que funcionários alimentem os animais de rua, e os condôminos evitam fazer isso para que animais de rua não se fixem no local. Abaixei-me perto dela para checar sua reação, e qual não foi minha surpresa quando ela se aproximou sem nenhum receio, ainda com rabinho abanando! Desajeitadamente, por conta do enorme volume da barriga, deitou-se de costas como a pedir carinho, mas juro que estava me dizendo: "Veja só, moça, minha situação! Em plena época de chuvas, estou na rua e cheia de filhotes prestes a virem ao mundo!". Não precisei ouvir mais: pedi a um dos garagistas que me ajudasse a trazê-la até meu apartamento e improvisei uma vasilha com água e outra com arroz e ovo, tudo sem óleo. Não fazia idéia do que poderia ou não dar a ela naquela situação.
No meio de tanto improviso, comecei a chamá-la de Linda, pois era só o que me vinha à cabeça. "Como você é linda!". Logo percebi que Linda não se assustava com o barulho da televisão ou da máquina de lavar. Que só entrava num cômodo quando chamada. Que entendeu imediatamente que aqueles potinhos eram dela e que aquele paninho limpo no chão servia de caminha. Dormiu quase imediatamente, só acordando quando meu marido chegou em casa e quase infartou ao ver aquela cachorrinha tão sujinha e prenha de pelo menos 7 filhotes no canto da sala. Abanou o rabo assim que o viu e pronto, conquistou-o.
Àquela noite não dormimos. Fizemos vigília ao sono da Linda, pois temíamos que ela fosse parir ali mesmo, diante de duas pessoas inexperientes. Mas não, Linda acordou bem cedo na manhã seguinte e foi nos agradecer um tanto receosa, pois havia feito cocô no meio da cozinha e estava morrendo de vergonha. Nós a levamos ao veterinário assim que a clínica abriu, fizemos exames e foi constatado saúde perfeita e bebês em breve, mas ainda em alguns dias, e idade aproximada de 2 anos.



Como teríamos que trabalhar na semana seguinte, decidimos que ela deveria ficar com a minha sogra, pois ela teria tempo e espaço para cuidar da futura mamãe e seus filhotes. E lá Linda ficou e teve 9 filhotes no dia 12/10. Por ser feriado, tive o privilégio de assistir aos partos e por instinto, até entendi que precisava puxar alguns. Entendi, inclusive, que havia algum problema com a boquinha de alguns que não mamavam, então descolei-as. Eram 8 machos e 1 fêmea: Tapioca e Biju (todos branquinhos), Ébano, Bob, Bolt e Max (pretos com caramelo e branco), Urso, Paçoca e Caramelo (marrons). Vimos Tapioca ser naturalmente rejeitado por nascer muito pequeno e batalhamos para que ele sobrevivesse; vimos os filhotes firmarem as patas traseiras e abrirem os olhinhos; vimos a Linda ensiná-los a brincar sem ferir e a latir quando necessário; vimos a Linda recusar a mamada por estar com as mamas já muito feridas, no 35º dia de vida dos filhotes. Fomos a duas feiras de adoção, ambas um sucesso. Fomos criteriosos quanto aos adotantes e não nos arrependemos: todos estão saudáveis e felizes.
Ao final de tudo, torcíamos para que minha sogra ficasse com a Linda. Afinal, foram quase 3 meses de convivência! Mas não, Linda era bem-vinda para ser ajudada, mas não para ficar.
Nós a trouxemos de volta para o nosso apartamento no dia 20/12, sem saber ao certo o que fazer pois o tamanho dela não era adequado para o nosso espaço e conosco ela ficaria totalmente sozinha por 8 horas. Já constava anúncio dela em sites de adoção, mas nenhum interessado aparecia. Comecei a procurar casas para comprar e pessoas interessadas no meu apartamento para vendê-lo, mas não encontrava nada que pudéssemos pagar no momento. Desisti de um curso que havia planejado há meses para não passar mais tempo ainda longe dela. Tudo porque Linda merecia e merece. Quando já estava cansada de procurar em vão uma solução que fosse adequada para todos, recebo uma ligação de um rapaz interessado nela. Era dia 31/12. Levamos a Linda para conhecê-lo e foi amor à primeira vista, ao menos da parte dele. Conversamos bastante e percebemos que ali estava uma pessoa amante dos cães e bem entendida do assunto! Parecia um sonho, exceto que nosso coração estava rasgado. Por mais que racionalizássemos a situação - Linda viveria numa casa enorme em área nobre, com uma senhora de 50 e poucos anos e com outras duas cachorrinhas - a dor de perdê-la foi extrema. Quando a deixamos com os novos adotantes, ouvimos o choro dela ao longe conforme nos afastávamos de carro fazendo eco com o nosso. Sabíamos que um pedacinho de nós ficava com ela, e um pedacinho dela seguia conosco. Aprendemos que amar também é deixar ir.
Frequentemente recebo fotos e vídeos da Linda em seu novo lar, explorando o imenso território recém-conquistado e brincando com as novas amizades caninas. Cada nova informação de felicidade cicatriza um pouco mais nosso coração e nos deixa imensamente orgulhosos desse serzinho que não deixou a meiguice de lado ao atravessar o que possivelmente foi o momento mais difícil da vida; que se apoiou no meu corpo para fazer força durante as muitas contrações do parto; que permitiu serenamente que seus filhotes seguissem seus destinos em novos lares; e que soube compartilhar a dor da despedida e da saudade.
Às pessoas que me perguntavam se eu estava louca ao trazer um animal da rua para minha casa, ainda mais uma fêmea prenha, e ainda mais ao meu apartamento tão estiloso, sempre respondi o mesmo: minha alma era seca antes de ser Linda.








Marília tem 29 anos e trabalha numa Vara de Família. Adora animais e cresceu com dois poodles, hoje  bem idosos (um tem quase dezoito, o outro, mais de catorze anos), que vivem com sua mãe. Apesar de estarem ambos cegos e o mais velho já ficando surdo, ambos gozam de ótima saúde geral. Em palavras dela: "Amor em excesso estica a vida, sabe? ;) Tudo que sei sobre "paciência", "bondade" e "lealdade", aprendi com eles. E as lições "gentileza", "gratidão" e "resiliência", devo à Linda!"

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

As Sete Vidas de Rita Lee




Minha Gata Rita Lee
(Joyce Moreno)

Quando você chegou em casa, foi coisa tão inesperada
Ali na porta abandonada a nos pedir casa e comida
Magrinha, magrinha, arrepiada, de pelo vermelho, olhos de fome
Eu não podia mesmo te dar outro nome, Rita Lee
E assim você foi adotada por todos nós alegremente
Oscar morava já com a gente, era igualmente um vira-lata
E apesar de serem cão e gata jamais houve dois mais companheiros
Jamais dois amigos assim verdadeiros, nunca vi

Ah, Rita Lee, por onde é que anda Rita Lee
Sem pai nem mãe, sem pedigree, imprevisível Rita Lee
Ah, Rita Lee, por onde é que anda Rita Lee
Sem pai nem mãe, sem pedigree, irresistível Rita Lee

Passava o tempo descuidada, sempre inventando brincadeiras
Saltos mortais de mil maneiras, deixando a gente distraída
E assim ninguém viu sua saída, talvez só o Oscar tenha notado
E a noite engoliu as suas sete vidas, Rita Lee
Ah, Rita Lee, por onde é que anda Rita Lee
Sem pai nem mãe, sem pedigree, imprevisível Rita Lee
Ah, Rita Lee, por onde é que anda Rita Lee
Sem pai nem mãe, sem pedigree, irresistível Rita Lee

Minha mãe, princesa, vivia em palácio... Berço de ouro, coleirinha de veludo ou o contrário, não lembro bem. Sei que, um dia, ela aproveitou a porta aberta e largou a perna no mundo. Voltou, claro, que de vida mansa e comida farta, até eu, que sou bem boba, gosto muito.
Ganhou festa e chamego, brinquedos novos e outra marca de ração. Tudo para não querer fugir de novo.
Só não sabiam que ela trazia, desta vez, além de pulgas e carrapatos, eu e cinco irmãozinhos.
Fomos bem recebidos por ela e as crianças da casa. Ansiosos nos olhavam os outros: desmamássemos logo para tomarmos nosso rumo, que esperavam, fosse tão bom quanto o dela. Mas, longe. Bem longe dali.
Brincadeira divertida: nos punham na caixa, tornávamos a sair. Ficou sem graça quando fecharam a tampa. Escuro, calor e tudo tremia. Gritávamos para nos tirarem dali, chamamos a mamãe... Ninguém atendeu. Sacode para cá, sacode para lá... Enfim, abriram a tampa. Saímos dela correndo. Brincar de caixa, nunca mais. Cadê mamãe e as crianças? E o berço de veludo, a coleirinha dourada? Em grades vizinhas, outros bichos com as caras tristes de esperar. E logo entendemos que ali seria nossa casa, até que nos viessem buscar. Quem? Ninguém sabe... Mas eles vêm. E ficamos nós também ali, tristeza nos olhos fixos na porta por onde eles costumam chegar. Meus irmãos, bonitos como mamãe, aos poucos foram saindo. Com o tempo, mais alguns. E para cada um que nos deixava, outros tantos lá chegavam em vigília àquela porta. Um dia, enfim também eu pude por ela passar. Uma criança, linda, sorridente, pegou-me feliz em seus braços e disse “mamãe, é essa aqui”. Nunca antes na vida, senti-me tão especial. De novo tudo vibrando, de novo os sacolejos. Mas, no colo da Carol, eu me sentia no céu. Ali ganhei um nome: Mimi. A casa era bem simples e era tudo o que eu queria. Para ser feliz me bastava o sorriso doce e sincero daquela que me escolheu. E fui feliz por uns anos, até que ouvi dizerem que havia um bebezinho na barriga da mãe. Virei ameaça. Tentaram outro lar para mim. O tempo passou e o medo venceu. Levaram-me longe e foi lá que me deixaram. Tentei voltar sozinha, mas, sozinha não seguia. Tinha companhia: sede, fome, medo, cansaço, sol, chuva, frio, vento. Enxotada, chutada... até pedra jogaram em mim. Desacostumei de carinho, desconfiei de gente. Esgueirava-me. Parei numa porta, uma sombra, um cheiro, um oh! Fui recebida com alegria por outras gentes. E um tal de Oscar, sujeito bacana. Cachorro com alma de gato, ficou logo meu amigo. Bons tempos, aqueles! Havia música e eu ganhei nome de dama. Dama do Rock, Rita Lee.
Eu era quase feliz, mas nas noites de frio lembrava Carol, minha grande amiga, minha pequena dona.
Então eu a vi, do outro lado da rua.
Não pensei em mais nada, pulei a janela - vasei pela grade - e voei!
Corri ao seu encontro, um carro veio ao meu. Rolei pela calçada, nada mais eu vi então.
Senti-me como naquela vez, na caixa escura. Sacolejos... Mas a caixa, desta vez, era macia e me abraçava, e soluçava, e me pedia, entre lágrimas, para não morrer. E me chamava de Mimi. Abri os olhos e a vi. Minha criança, minha pequena dona, meu grande amor. Achei que era um sonho, não queria mais acordar. Era naqueles braços que eu queria morrer.
Ela não deixou. Cuidou de mim, incansável, dia e noite, noite e dia. Seus pais entenderam que eu não era um perigo. Bastaram alguns cuidados e o bebezinho chegou. Lindo, forte e saudável. E, ainda tão pequenino, já sorriu doce pra mim. Esticou-me mãozinhas gorduchas, queria me abraçar.
"Sete vidas já não tenho... vivo bem as que restaram." 
É o recado que hoje mando, para a Joyce e o Oscar.



Nena Medeiros é escritora e protetora e esta é uma história de ficção inspirada na música acima e em tantas histórias reais que vemos por aí. É também um jogo dos erros. Você saberia identificar os erros cometidos pelos humanos citados nesta história, que poderia ter tido um final bem trágico para a Mimi/Rita Lee?

Imagem da Internet.